A DANÇA DOS DEUSES HINDUS

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A Dança dos Deuses Hindus


Dias 04, 11 e 18 de agosto com o Facilitador Didata em Biodanza Cleber Castilhos.
Na Frater Espaço Biocêntrico, Rua Vicente da Fontoura, 1015, sala 201.
Porto Alegre - RS

Informações e Inscrições: (51) 3332-5526 e (51) 9814-4318


A Dança das Transformações e os Atributos Mitológicos de Shiva

Dia 4 de agosto de 2010, quarta-feira, às 20 horas.

Facilitador Didata Cleber Castilhos

Local: Frater Espaço Biocêntrico, Rua Vicente da Fontoura, 1015 sala 201

Informações com o Facilitador: clebercastilhos@yahoo.com.br

Telefones (051) 3332-5526 e 9814-4318


fragmento extraído de “A Dança dos Deuses Hindus”, Ensaio Mitológico de Cleber Castilhos, apresentado como titulação em Biodanza. Porto Alegre, 1994.


Um dia, Shiva, disfarçado de um devoto iogue, quis dar uma lição nos sábios da floresta de Taragu, que estavam muito soberbos. Os sábios, para testar o novo jogue, armaram uma fogueira encantada. Imediatamente, surgiu um tigre da fogueira e atacou Shiva. Como se o tigre fosse inflável, ele o apertou e fez um agasalho para si. Logo em seguida, materializou-se uma terrível naja; com toda calma, fez da cobra um adorno para seu pescoço. Em seguida, surge o demônio Quar e Shiva joga-o no chão e dança sobre ele. Transforma-se em sua imagem divina como Shiva Nataraja ou Shiva dançante."
Esse é um dos diversos mitos do deus Shiva, talvez a divindade mais querida dos hindus. Podemos considerar a Dança de Shiva como uma manifestação física no ritmo cósmico. Shiva Nataraja personifica o eterno movimento do universo. [1]
Esta dança representa a destruição do mundo de ilusões de mãyã [2]. Na concepção hinduísta, o cosmos visível nada mais é que uma ilusão, uma miragem que oculta o verdadeiro ser. Somente quando olhamos através das esferas externas das aparições palpáveis e visíveis é que se pode avançar em direção ao ser puro, ao absoluto, seja qual for o nome que se dê (absoluto, transcendente, imortal, etc.).
A essência e fundamento de mãyã, que envolve a verdade como um véu, é a contradição. Da mesma forma como os lados escuros da vida formam um contrapeso para os claros, ambos os lados se intercalam, como a suave bondade dos deuses e a sinistra ambição dos demônios. O mundo, assim representado, é uma mistura de bem e de mal, de felicidade e de infelicidade. Shiva impõe a aceitação desta totalidade, como condição para compreender a fluidez do mundo. No transcorrer de uma vida, como na Dança de Shiva, nem bem a melodia e o movimento são iniciados e, rapidamente, já os perdemos.
O caráter dinâmico do universo e de todas as suas criaturas, tal como é revelado pela filosofia hindu, nos transporta a um outro conceito de tempo, muito distante do modelo cartesiano, que influenciou quase toda cultura ocidental neste século .
Como tentativa para aproximar-nos desta realidade pulsante, é valiosa e oportuna a associação que a Biodanza utiliza para a Dança das Transformações:

"La danza de Shiva es la representación del proceso cósmico de creación y destrucción infinita, Un bailarino solitario, en el circulo de fuego de Ias constelaciones, realiza los movimientos que crean y destruyen el Universo, mediante formas místicas que desplazan los padrones cósmicos de tiempo, espacio y materia, La danza viene siendo, así, un conjunto dramático de movimientos que tienen un poder de mutación, de transformación de Ia realidad." [3]
Porém, quando o indivíduo apreende sua tarefa e sua participação no palco da vida, feita de desejo e sofrimento, inicia numa nova fase, sem tristeza e sem decepção:

"Quando o ator toca o tambor, todos vêm vê-lo. Quando o ator junta seus apetrechos, está sozinho na sua felicidade”. [4]




O sofrimento e a alegria do cotidiano elevam-no em êxtase, transformando-se ele próprio no grande dançarino cósmico. Dizem os místicos shivaístas, que aquele que vê essa dança mística, livra-se da corrente dos renascimentos, e sua alma emerge no oceano da bem-aventurança.
A seguir, descrevo os atributos presentes nos diversos gestos simbolizados na Dança de Shiva [5]
:

· a mão direita superior de Shiva traz, para marcar o ritmo da dança, o tambor; símbolo do som da criação, cuja batida é o passar do tempo, primeiro princípio da criação. Este gesto (mudrã), é originalmente executado segurando-se o tambor pelos dedos mínimos e indicador esticados (damaru-mudrã). O som, também é o veículo da fala, verdade divina, portador da revelação, encantamento e magia. Além disso, o som é associado na Índia, com o éter, o primeiro dos cinco elementos. O éter é a manifestação sutil que emana da substância divina, da qual se desenvolveram os outros elementos: o ar, a água, a terra e o fogo.
· a mão esquerda superior, cujos dedos assumem uma posição semelhante a uma meia-lua (ardhachandra-mudrã), traz em seu interior uma chama que simboliza a destruição do mundo criado. O fogo aniquila e remove as ilusões. Destruindo o próprio corpo da criação, é então ele apagado pelo oceano do vazio. O equilíbrio das mãos, assimila-se ao equilíbrio criação-destruição na grande dança cósmica: a criação incessante versus o "apetite" da destruição (o som contra a chama).
· garantindo proteção e paz, o gesto de afastar o medo (abhaya-mudrã) ou "Não Temas", é realizado com a segunda mão direita inferior; estendida com os dedos erguidos e a palma voltada para a frente.
· a outra mão esquerda, na extremidade do braço transversal ao peito, imitando a tromba esticada de um elefante (gaja-hasta-mudrã) simboliza Ganesha, o removedor de obstáculos, filho de Shiva. Apontando para baixo, em direção ao pé esquerdo erguido, esta mão almeja alcançar a união com o Absoluto, garantindo a manifestação expressa no gesto "Não Temas".
· o pé esquerdo levantado, significa liberação, simbolizando o elefante (aquele que abre caminho pela selva do mundo: o guia divino).
· com o pé direito, Shiva subjuga o anão-demônio Apasmãra-Purusa, dançando sobre suas costas: o anão-demônio simboliza a cegueira da vida, a ignorância humana. Forçando-o a reconhecer a verdadeira sabedoria, Shiva aponta para a libertação da servidão do mundo.
O dançarino cósmico está cercado por um anel de chamas e luz, emanados da própria divindade. Simboliza os processos vitais do universo e de suas criaturas; a própria natureza em dança. As chamas também estão associadas à sabedoria, à luz transcendental do conhecimento da verdade. Outro significado alegórico atribuído ao anel flamejante, refere-se à silaba sagrada AUM ou OM (as vogais "a" e 'u", quando juntas, formam "o"). A = consciência vigil, o estado desperto, experiência rudimentar. U = consciência onírica, que vivencia as formas sutis dos sonhos. M = sono sem sonhos, consciência imóvel e indiferenciada, onde toda experiência é dissolvida numa não-experiência. O silêncio que segue à silaba sagrada, é o Imanifesto Transcendente: supraconsciência que se funde com a pura essência da realidade divina.
Nesta dança, a cabeça do deus é equilibrada, serena e imóvel, em meio ao dinamismo da criação e da destruição, simbolizado pelos braços oscilantes e pelo ritmo do calcanhar direito, que é batido lentamente. O brinco da orelha direita de Shiva é de homem e o da esquerda, de mulher (o deus inclui e ultrapassa a noção de pares de opostos). Sua expressão facial, não é nem de tristeza, nem de alegria e, apesar de seu olhar estar em conexão ao infinito, não ignora os prazeres e dores do mundo.
Os cabelos de Shiva, longos e revoltos em mechas, representam os cabelos há muito não cuidados do jogue Indiano, dançando a vida - ora nos momento de alegrias e tristezas do mundo, ora nos momentos de meditação profunda.
Na dança cósmica, reúnem-se as cinco propriedades ou atividades de Shiva:
- Criação e evolução (sristi),
- Preservação e proteção (sthití),
- Destruição e renascimento (samhara),
- Jogo de ilusões, a ocultação do ser verdadeiro (tiro-bhava): o velar do verdadeiro ser por trás das vestes e máscaras das aparências, da manifestação de mãyã,
- Graça (anugraha): a concessão da paz através de uma manifestação reveladora.


Estas propriedades estão perfeitamente integradas e assumem sentido no mover-se do deus. Estão simbolizadas pelas posições das mãos e dos pés (as três mãos superiores: criação, conservação, destruição, respectivamente; o pé sobre o anjo demônio da ignorância é o jogo das ilusões e o outro, erguido, é a Graça. A mão do elefante, representa a ligação entre as outras três e os pés, prometendo paz a quem vivencia a relação). Todas as cinco atividades são manifestadas em seqüência, simultaneamente à pulsação de cada momento, através das diversas transformações que sofrem no ciclo dos tempos.

Nas palavras de Coomaraswamy:

"Oh, meu senhor, tua mão, que segura o tambor sagrado, colocou o céu, a Terra, outros mundos e incontáveis almas no lugar correto. Tua mão erguida protege tanto a ordem consciente da criação como a inconsciente. Todos estes mundos são transformados pela mão que leva o fogo. Tua mão esquerda dá abrigo às almas sofridas e cansadas. Teu pé erguido garante a eterna bem-aventurança a todos aqueles que se aproximam de ti. [6]

Esta dança representada por Shiva Nataraja, como já vimos, serviu de modelo para que Rolando Toro criasse a Dança das Transformações. Três categorias essenciais do movimento foram utilizadas por Toro na sua elaboração:



- Unidade: "significa que todo el cuerpo se mueve en perfecta coordinación, integrando sus partes y conectóndose a todo lo viviente. Desde el punto de vista psicomotor, requiere una integración de vías piramidales y extrapiramidales," [7]
- Equilíbrio: "plantea Ia exigencia del movimiento en relación con Ia fuerza de gravedad de Ia tierra, reajustando en todo momento Ias estructuras posturales. Todas Ias variaciones se realizan en equilibrio inestable sobre una pierna, lo que requiere Ia integración de los receptores del equilíbrio del oído interno con Ias estructuras córtico-cerebelosas" [8]
Enriquecendo ainda mais esta conceituação, agregam-se, as funções psíquicas de adaptação e equilíbrio existencial, frente as tentações de mudança e busca de novas opções para um estilo de vida saudável. Muitas vezes somos chamados a novos paradigmas: um novo amor, um novo trabalho, um novo lugar. Encontrar um equilíbrio interior (a partir do seu centro) é, sem dúvida, critério fundamental para atingirmos algo que se possa chamar de equilíbrio existencial.
- Harmonia: "Ios movimientos deben hacerse en perfecta fusión con Ia música, dando el cuerpo Ia pulsación de Ia vida". [9] Pulsação essa, que - no ponto máximo, cessa a aparente barreira entre o mundo interior e o mundo exterior . Nas primeiras experiências com a Dança das Transformações, os participantes do grupo podem experimentar sensível integração de suas estruturas sensório-motoras, auditivas, visuais e vestibulares. Toro percebeu, também, que em estágios mais avançados, outros níveis de integração podem ser induzidos, ativando-se não apenas as vias corticais, senão os centros límbicos relacionados com a "consciência cósmica".



[1] Podemos associar a idéia da "eterna mudança", presente na mitologia hindu, com a frase do grego Heráclito: “A única coisa permanente no mundo é a mudança”. Como veremos, no decorrer deste ensaio, há muitos pontos em comum entre o pensamento indiano antigo e o grego.
[2] Necessitaríamos uma obra inteira para tratarmos do conceito de "mãyã". Por ora, reportemo-nos a conceituação de Zimmer: " A mãyã dos deuses é o poder que têm de assumir diversas formas, exibindo, segundo sua vontade, vários aspectos de sua essência sutil. Mas são, os próprios deuses, a produção de uma mãyã maior: a espontânea autotransformação de uma substância de origem indiferenciada, divina e onigeratriz. Essa mãyã maior produz não apenas os deuses, mas o universo no qual atuam. (...) Mãyã é a Existência: tanto o mundo compreendido por nossa percepção quanto nós próprios que, inseridos nesse meio que se expande e dissolve, também nos desenvolvemos e dissolvemos. Ao mesmo tempo, mãyã é o poder supremo que gera e anima a manifestação, aspecto dinâmico da substância universal. É, a um só tempo, efeito (fluxo cósmico) e causa (poder criativo)." ZIMMER, Heinrich. Mitos e símbolos na arte e civilização da Índia. São Paulo, Palas Athena, 1989. p.30
[3] TORO, Rolando. Teoria da Biodança: Coletânea de Textos. Editora da ALAB, Fortaleza, 1991. p.106
[4] COOMARASWAMY, AnandaK. The dance of Shiva. Asian Publishing House, Bombaim, 1948. p.66
[5] A Dança de Shiva é universalmente conhecida, pelos diversos achados arqueológicos: estatuetas do deus dançarino. Rolando Toro, inspirado nessa simbologia, criou a "Dança das Transformações", designação correta que se deve empregar, quando fizermos referência à vivência específica de Biodanza. Sugere-se que, com este subsídio informativo, possa-se esclarecer na consigna ou em momento anterior, os elementos que considerarmos significativos. Não deve o facilitador orientar os participantes a seguirem fielmente os passos estabelecidos, sob o risco da vivência se tornar mecânica. Com uma correta descrição e uma precisa consigna, os participantes do grupo associam de forma consciente, ou não, os elementos que forem mais emergentes no momento da sua vivência.
[6] COOMARASWAMY, Ananda K. op. cit., p.71
[7] TORO, Rolando. op. cit., p.407
[8] Ibid., p.408
[9] Ibid., p.408

A Dança de Vishnu e a Preservação da Vida

Dia 11 de agosto, quarta-feira, as 20 horas.
Facilitador Didata Cleber Castilhos
Local: Frater Espaço Biocêntrico, Rua Vicente da Fontoura, 1015 sala 201
Informações com o Facilitador:
clebercastilhos@yahoo.com.br
Telefones (051) 3332-5526 e 9814-4318


A Dança da Conservação da Vida e os atributos mitológicos de Vishnu

Com o crescimento do hinduísmo sobre o vedismo, o culto aos deuses se caracterizou cada vez mais em imagens antropomórficas; a concepção de uma unidade primordial "brahman”13 caiu no esquecimento e Vishnu e Shiva tornaram-se populares, introduzindo em suas esferas místicas elementos pré-arianos14.
Entrou na devoção a Vishnu, um fator novo - o épico, fruto do militarismo que se instalara nessa época na Índia. Vishnu herdou certas funções que nos Vedas cabiam a Indra15. Assumiu, primeiramente, uma função cósmica como Narayana, eixo e conservador do mundo. O culto a Vishnu se desenvolveu, também, harmonizado com as concepções cíclicas da história do universo, e segundo a lei da reencarnação, no que se chamou de "doutrina dos avatares”. Conforme tal doutrina, o tempo humano e o divino estão intimamente associados. Para os hindus, o universo é a respiração de Brahmã; supõe alternâncias de expansão e contração, segundo a sincronia de grandes e pequenos ciclos. Nos intervalos entre o dia (expansão) e a noite (contração), há o pralaya, a dissolução que prepara o reinício de um novo ciclo.
De acordo com esta mitologia, cada ciclo cósmico está subordinado em quatro yugas ou idades do universo. Podem ser comparadas às quatro idades da tradição greco-romana; semelhante a essa, ocorre um declínio moral à medida que o ciclo prossegue. As idades do período clássico grego, receberam seus nomes dos metais: ouro, prata, bronze e ferro; as hindus, dos quatro arremessos do jogo de dados indiano: krta, tretã, dvãpara e kali.
Compreender esta cosmovisão é a chave mestra que pode nos dar acesso à filosofia perene da índia. Tarefa que nos parece difícil, mas como nos anima Zimmer:

"Essa vasta consciência do tempo, que transcende a breve duração de uma vida individual ou até a biografia de uma raça, é a consciência temporal da própria natureza. Esta conhece não apenas os séculos, mas as eras -geológicas, astronômicas -, transcendendo-as. Os egos multitudinários são seus filhos, mas sua preocupação é a espécie; as idades do mundo são os menores períodos de tempo que concede às várias espécies que cria e às quais permite morrer, por fim (como os dinossauros, os mamutes e os pássaros gigantescos). A Índia - como se fosse a Vida meditando sobre si mesma - mede o tempo em períodos comparáveis aos da astronomia, geologia e paleontologia. Considera-o e a si mesma sob o ponto de vista biológico e das espécies, não dos eus efêmeros. Estes envelhecem, ao passo que aquelas são antigas e, portanto, eternamente jovens.
Nós, ocidentais, por outro lado, vemos na história do mundo a biografia da espécie humana, em particular do homem ocidental, a quem consideramos o mais importante membro da família. A biografia é uma forma de ver e representar que se concentra no singular, no irreproduzível, em algum dos âmbitos da existência, revelando então os indícios denotadores de direção e sentido. Pensamos em egos, em vidas e indivíduos, não na Vida. Nosso objetivo não é o de nos inserirmos, através de nossa atuação humana, no plano universal da natureza, mas sim de nos opormos a ele, com nosso egocentrismo obstinado. Por enquanto, as ciências físicas e biológicas - que são relativamente jovens - ainda não afetaram a tendência geral do nosso humanismo tradicional. Também não nos demos conta, até agora, de suas possíveis implicações filosóficas (exceto quanto à lição de “progresso” que gostamos de deduzir de sua evolução). Chegamos a ponto de, deparando-nos com algo afim, nos éons hindus, conservamo-nos, sob o ponto de vista emocional, absolutamente frios. Não temos capacidade ou preparação para preencher os espantosos yugas com o significado da vida. Nossa concepção das longas eras geológicas que precederam a ocupação humana do planeta e que, espera-se, a sucederão, e os números astronômicos com que descrevemos o espaço exterior e as rotas dos astros, podem, em certa medida, nos terem preparado para uma concepção dos limites matemáticos da visão; mas não conseguimos perceber com nitidez qual é a sua importância para uma filosofia prática da vida humana”16 .

A primeira yuga, cuja duração é de quatro vezes maior que a última, chama-se krta yuga. É um tempo de felicidade, beleza e verdade, O dharma, a ordem moral do universo, firma-se durante esse período sobre as "quatro pernas da vaca sagrada". O “quatro", o quadrado, significa a totalidade, é o lance perfeito dos dados.
A segunda, de duração três vezes maior que a última, chama-se tretrã yuga, onde brota a inquietude. Durante essa idade, os homens esquecem as leis (que antes eram espontâneas), precisando as mesmas serem aprendidas.
Dvãpara yuga é a idade do perigoso equilíbrio entre os opostos, perfeição e imperfeição, luz e trevas. Neste ciclo, apenas dois dos quatro quartos do dharma têm ainda ordenamento no mundo manifestado - os outros, perderam-se entre os homens. A perfeição da ordem espiritual não rege mais a vida dos homens e do universo. A vaca sagrada, agora, apóia-se apenas em duas pernas.
E, finalmente, a última e menor chama-se kali yuga; significa "a pior de todas as coisas". O homem e o mundo atingem o limite do que têm de pior. É o período de trevas, medos e dissolução, que transforma o universo em nada, reiniciando um novo ciclo.
Nesse estranho quadro do universo, a Índia coloca a doutrina dos avatares propriamente dita. Segundo esta concepção, Vishnu encarna como homem ou animal, no início de cada maha-yuga17, a grande idade. O retorno do deus traz ao mundo, um ensinamento divino que conduz à felicidade e à virtude, de modo que a humanidade deve se comportar segundo o dharma (a lei divina). Mas, conforme o tempo passa, os homens vão esquecendo a revelação divina, vão deturpando a mensagem do Avatar, vão se afastando do dharma e se corrompendo até que, findo o período de trevas (kalí yuga), a ilusão se desfaz e Vishnu novamente reencarna trazendo uma nova revelação, iniciando outro maha-yuga.
Avatar é um termo sânscrito, aplicado a Vishnu, que significa "descida", ou "aquele que desce", indicando as sucessivas reencarnações do deus :


- As primeiras três são na forma de animais: (1) peixe, (2) tartaruga, (3) javali. Segue-se um ser meio humano e meio animalesco, (4) o homem-leão; vem então o (5) anão Vamana, cuja lenda já se encontra na mais antiga literatura indiana. A Vamana segue-se (6) Rama-com-machado, uma das mais significativas encarnações de Vishnu que, como herói do Ramayana vence o rei dos demônios Ravana. Rama (7) como marido afetuoso, rei amistoso e príncipe corajoso, representa a imagem ideal do homem indiano. A oitava encarnação de Vishnu é (8) Krishna, uma das mais populares divindades hindus, que está cercado por um grande ciclo de mitos. Segundo a lenda, Krishna era um rapaz excepcionalmente amável, sempre ocupado em fazer travessuras. Nos mitos, a dança de amor é o ponto culminante das experiências de Krishna com as Gopis (pastoras), e representa também o fim de sua juventude. Numa noite iluminada pela Lua, Krishna tocou a flauta para atrair as pastoras e dar-lhes uma amostra da alegria que seria estar com ele no paraíso. Ele cantou e dançou, iniciando-as nos segredos de "eros". Para isso, o jovem deus tocou sedutoramente sua flauta, levando as apaixonadas pastoras ao êxtase. Seis meses durou a dança com suas alegorias eróticas, terminando com um banho no rio, do qual toda a sociedade participou. A nona encarnação do deus é (9) Buda18 e a última (10) Kalki, a encarnação vindoura.
Inspirado nesta fértil e rica mitologia, Rolando Toro criou a Dança da Conservação da Vida. Toro buscou resgatar os movimentos de vida através da homeostase de Vishnu:

"Vishnu es el dios de la conservación de los ciclos vitales. Representa la fuerte inercia biológica que reitera y conserva la vida y el universo. Es la belleza de lo permanente, lo que genera seguridad y confianza, Todos los días, el amanecer; el mismo sol apareciendo, siempre para brindar la vida; todas las noches, la luna en la oscuridad; la misma secuencia de estaciones; la notable estabilidad de las estrellas en la bóveda celeste. Los seres queridos permaneciendo dentro de nosotros, la felicidad de ver siempre un mismo rostro”.19

Se na Dança das Transformações (Shiva), encontramos as condições necessárias para darmos um salto evolutivo (transtase), mudando as formas de equilíbrio, em Vishnu tratamos de consolidar o estabelecido - através de um processo que garanta a homeostase. Induz-se, assim, "la profunda necesidad de movernos dentro de padrones de estabilidad, con referencia a un centro afectivo adherente, pleno de continente. El cuidado del calor íntimo de la vida y del hogar, guardar el fuego dentro de nosotros, permanecer en el éxtasis de lo cotidiano, conectados a la tierra y rechazando los cambios, dar a la vida la solemnidad indispensable para hacer de ella un lar de crecimiento y maduración".20

A Dança da Conservação da Vida está firmada por Toro em onze etapas, que passo a reproduzir; acrescentando, quando possível, atributos e argumentos associados ao mito estudado.

1 - Busca do centro

Com os pés firmados no chão, oscilamos o corpo com movimentos leves em sentido lateral e antero-posterior, até encontrarmos nosso eixo, o centro. Diminui-se esse movimento até sentirmos a estabilidade.
O equilíbrio é a base para a conservação da vida .
Encontrando nosso eixo, o centro, encontramos também o axis mundi, o eixo do mundo. Nesse momento, somos o próprio Cosmos.
Nas palavras de Eliade: “um Universo origina-se a partir do seu Centro, estende-se a partir de um ponto central que é como o seu “umbigo”. É assim que, segundo o Rig Veda (X,149), nasce e se desenvolve o Universo: a partir de um núcleo, de um ponto central. (...) Por outro lado, uma vez que a criação do homem é uma réplica da cosmogonia, daí resulta que o primeiro homem foi fabricado no “umbigo da Terra" (tradição mesopotâmica), no Centro do Mundo (tradição iraniana), no Paraíso situado no “umbigo da Terra" ou em Jerusalém (tradições judaico-cristãs). E nem podia ser de outra forma, aliás, pois o Centro é justamente o lugar onde se efetua uma ruptura de nível, onde o espaço se torna sagrado, real por excelência. Uma criação implica superabundância da realidade, ou, em outras palavras, uma irrupção do sagrado no mundo."21

2 -Variações simétricas

Com movimentos leves e simétricos, deslocamos os braços bem próximos do eixo central do nosso corpo.
Esses movimentos simbolizam as afinidades, o que há de comum entre nós e as demais pessoas, entre nós e o universo.

3 -Variações assimétricas

Com movimentos leves e assimétricos, deslocamos os braços próximos do eixo central do nosso corpo.
Esses movimentos simbolizam as diferenças, a oposição natural, o que torna a nossa vida única e distinta das outras pessoas.

"O segredo de Mãyã é a identidade dos opostos. (...) O "e” que une essas incompatibilidades expressa o caráter fundamental do Ser Supremo, senhor e controlador de Mãyã e cujo energia (oh, paradoxo!) é Mãyã. Os opostos têm fundamentalmente uma única essência; são dois aspectos do mesmo Vishnu".22

4 - Posição de Vishnu

Com o corpo em equilíbrio, apoiado sobre a coxa esquerda, a mão esquerda toca a borda externa do osso femural.
Este gesto (katyvalambita-hasta) simboliza a serenidade e tranqüilidade, a certeza e a determinação das coisas que queremos conservar e assegurar em nossas vidas.
A mão direita levantada à altura do peito, com a palma para a frente, num delicado gesto de deter os elementos externos (abhaya-mudrã), impõe respeito e reafirma a nossa vontade, a nossa escolha na vida.


5 - Rechaço às mudanças

Neste momento, as coisas ou situações que desejamos afastar de nós, rejeitamos, avançando a mão direita num suave gesto de rechaço. É um movimento com decisão e sabedoria. Com esse gesto, colocamos ordem no mundo, garantimos a sobrevivência da espécie e escolhemos o estilo de vida que queremos para nós.

"O papel de Vishnu, enquanto preservador do mundo, envolve sua função de mediador ou moderador das energias antagônicas em atividade no processo vital do universo. Ele aplaca o impacto avassalador dos poderes destrutivos e desequilibrantes. Consegue-o, descendo ao universo encarnado em algum de seus avatares, refreando ou subjugando as forças terríveis que ameaçam trazer a ruína em geral, restaurando, por fim, o equilíbrio efetivo entre os opostos".23

6 - Dança simétrica, com movimentos amplos

Sabendo o que queremos conservar, podemos ampliar nossos horizontes, percebendo que as igualdades e diferenças são movimentos complementares. Nessa dança, reforçamos nossas afinidades com movimentos amplos e simétricos, em torno de nosso eixo.

7 - Dança assimétrica, com movimentos amplos

Nesta dança, com movimentos amplos e assimétricos em torno de nosso eixo, aumentamos o conhecimento das diferenças e como as sentimos. A diferença é uma forma alternativa de existência .

8 - Cuidando do fogo

Com a força e serenidade que sabemos possuir, elevamos nossas mãos à altura do abdômen formando uma esfera invisível que representa o nosso calor, o fogo que alimenta nossa vida - o fogo que é a nossa própria vida, e procuramos sentir o magnetismo fluindo de uma mão para outra.

“A produção de tal energia calorífera, seu armazenamento e uso para finalidades mágicas, é o objetivo da mais antiga forma de prática iogue. Nos mitos védicos tal energia é empregada pelos próprios deuses para inúmeros propósitos, em especial para o da criação. O deus-criador, ao aquecer a si mesmo, produz o universo: pela incandescência interna, ou emitindo uma emanação em forma de perspiração (...)”.24

9 - Guardando o fogo

Levamos essa esfera, que contém o nosso fogo, até o nosso peito, num gesto de intimidade. Os valores afetivos que representam o que há de melhor em nós, guardam-se dentro do peito. Vivenciamos assim, o profundo amor que cada um tem de si mesmo.

10 - Círculo de proteção

Os braços descem desde o centro e geram um círculo de proteção que se fecha sobre a cabeça.



Notas

13 O substantivo "brahman" (neutro) e Brahmã (masculino) não devem ser confundidos. O primeiro, refere-se ao Absoluto transcendente e imanente, além das classificações diferenciadoras de sexo; o segundo, é uma personificação antropomórfica do Criador Demiúrgico. "Brahman" é um termo metafísico, Brahmã uma designação mitológica.

14 Entre 3000- 2000 a.C., floresceu no antigo vale Indo, uma civilização altamente desenvolvida. Escavações realizadas em Moenjodaro e Harappa encontraram valiosos materiais, essenciais ao mapeamento arqueológico dos povos hindus. Com a invasão dos povos arianos, vindos do noroeste, uma nova religião foi estabelecida, ainda que com forte influência pré-ariana. Síntese desses processos culturais, o vedismo marcou o apogeu da casta brahmane. Porém, pressionado, o vedismo cedeu lugar ao hinduísmo. Os deuses passaram a ser representados antropomorficamente e foram erguidos templos para culto, nos lugares onde antes se realizavam sacrifícios. A religião se popularizou e foram incorporadas aos deuses supremos, muitas características dos deuses locais. Devido a herança dos povos antigos, os novos deuses usaram "veículos" (vahanas), aparecendo montados nos mais diversos animais: Brahmã e o cisne Hamsa, Shiva e o touro Nandi, Vishnu e a águia Garuda e a serpente Ananta.

15 Indra, no período védico, foi o deus do céu, o soberano dos deuses.

16 ZIMMER, Heinrich. op. cit., pp.22-23.

17 Cada Maha- Yuga possui 4.320.000 anos terrestres. É a soma das quatro idades do universo.

18Nota-se, claramente, a intenção do hinduísmo em impedir o crescimento e expansão do budismo. Assegurando Buda como avatar de Vishnu, os hinduístas controlariam o expressivo contingente de budistas que surgiam na Índia.

19 TORO, Rolando. op cit., p.405.


20 Ibid., p.405.

21 ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano, a essência das religiões. São Paulo, Martins Fontes, 1992. pp.40-41

22 ZIMMER, Heinrich. op.cit. p.44

23 Ibid.,. pp. 75- 76.
24 Ibid., p.94.